sábado, 8 de novembro de 2008

Sem os diários

Catchup fez coisas demais, tratos demais, viagens demais. Mas ele sabia que sua vez chegaria. E até o diário onde anotou tudo que fez nessa última parte de sua vida foi queimado.

Três tiros no peito. Nada mais.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

A noite é dele.


A noite é dele.
As palavras inocentes da loura do bar eram comoventes. Como um simples blues, ela só chorava a alegria alheia, a alegria do rapaz do ponto vermelho na lapela.


Eu nunca mais dei notícia, nem tive. Só sumi de lá e fiquei sabendo de tudo por fora. Estava cansado daquela vida e para sair dela precisava sair de perto dele. Não suportava mais acabar com a cabeça arrebentada e acordando em algum lugar que não sabia onde.


"Ele ria, e ria, e ria, e quando seu nome apareceu na conversa foi que ele entristeceu, afogou as mágoas em alguns copos de vodka e foi pra casa como se a noite tivesse acabado lá."


Foi o que ela disse.


Sinto muito, meu amigo, sua parceria foi muito importante, mas eu sinceramente não aguento mais caçar bandidos e não conseguir pegá-los... Não todos. Eu chego até a pensar que eu poderia me enveredar pela bandidagem. Não acho que vá realmente acontecer, mas quem sabe? Cansei de lutar contra algo que não conheço.


O ódio passou, a angústia, todo aquele mesclado de sentimentos que me enlouquecia mais que os narcóticos apreendidos de outrora tinha virado uma grande massa de nada, que era muito difícil de engolir. E agora tudo tinha passado, o ódio, a paixão...


Foi naquele dia, curiosamente ensolarado, em que tudo aconteceu diferente. Não havia mais a dama de amarelo, a de verde, nada... Só existia eu e meu vômito sentimental. Apareceram aqueles pontos brilhantes como esmeraldas e um panejo rubro incandescente, acompanhada de um rapaz alto que a abandonou.


"Não existiu mais o vômito,

o sentimento contido

Agora eu tinha entendido

Era mulher de bandido

Me disse algum desconhecido... é.

E eu não tinha entendido.

Droga! Nem bem faz sentido."


Quando dei por mim, como sempre, estava montado naquela grande motocicleta que me conduzia a qualquer lugar onde não existia mais a possibilidade, e o único risco era o de acabar a gasolina, com uma dama digna em minha garupa e o melhor sentimento de liberdade de todos.


Deixe que a vida cuide dos bandidos, deixe que a vida cuide de mim. Porque eu agora vou deixar você cuidar de si e vou morrer por aí.


Um abraço, seu eterno e então parceiro, Mostarda. Nem sempre, José Longochipre, el matador mexicano.

segunda-feira, 24 de março de 2008

E as noites seguem seu rumo


Foi uma longa semana. Eu presenciei uma série de fatos, a princípio desconexos, que mostraram uma sombra de desatinos sem fim. Era como uma força sem precedentes de lembranças antigas. Não sei... Recordei-me de minha irmã, quando ainda era pequeno, e quando ela noivou e saiu de casa. Lembrei-me de sua voz ao vento, de sua força infantil querendo dizer adeus. Mas não sei, era algo mais...

Os dias pareciam demorar a passar, como se eu tivesse parado no tempo, observando os segundos no relógio. Lembrava-me de antigos casos, de antigas vodkas, de frases soltas e de algumas conversas com Mostarda. Ah, como sinto saudade daquele moleque! É, nessas horas o saudosismo bate... Precisava relaxar.


Vi alguns folhetos sobre uma festa de gala que ocorreria em um grande salão. Não sei se era a dor de cabeça, a vontade de me acalmar ou o que, mas me senti atraído pelo evento. Somente grã-finos. Um local que nunca me imaginaria ir, mas fui. E fui em belos trajes, diga-se de passagem. "Se for para fazer algo fora do usual, que faça bem feito!", e assim fiz. E ainda bem que minhas lembranças não são em preto-e-branco!


Uma festa comum, alguns diriam... Para mim, era estranho pessoas em um salão, andando e conversando sem sentarem em cadeiras, beberem até onde podem e caindo na sarjeta. Bom, aquilo não havia de me ocupar a mente muito mais. Eu me servi de alguns quitutes, "pedi" uma garrafa de vodka ao garçom, junto de um copo, e me sentei em uma cadeira ao canto do salão. Acendi meu cigarro e fiquei a observar os movimentos de todos, naquele cortejo silencioso, angústia abafada e sorrisos cínicos. Uma graça um evento destes. Pena só ter ido agora.


Uma dama senta-se comigo, e começamos a conversar. Era uma moça de fino trato, elegante, e bem incisiva em suas palavras. Ela tinha uma persuasão que me fez questionar o pessoal daquele ambiente. Mas, ainda assim, nada do que foi dito e ouvido vale muito que comentar, pois palavras não compreendem olhares. A pequena era rápida com as palavras, e me devorava com os olhos. Eu apenas embalei na canção e me permiti brincar com seus gracejos. Sem floreios, conduzi a conversa para outros aspectos, até levantarmos e irmos conhecer outros cômodos do local. Foi uma boa festa, admito, e o que me mostrou que todas as rameiras são iguais foi depois deste passeio.


A boneca estava de papos com outro na festa. É, todos temos que manter nossos empregos, e não seria eu a recriminar um tipo de profissional que há muito conhecia e valorizava. Deixei a noite seguir seu curso. Resolvi ir para casa, descansar um pouco.


E aqui estou eu, chegando à rua que conheci somente há uns meses, lembrando que, não importam as circunstâncias, os fatos sempre se repetem...
Catchup

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008


E mais um dia se passava naquela cidade. Engraçado, é como se nada tivesse mudado: os mesmos bares, as mesmas caras, os mesmos pedidos. Engraçado também é como tinha se tornado fugaz aquela energia inicial daquele centro urbano. Parecia um grande turbilhão.


A dama de vermelho foi-se embora. "Melhor assim", pensei, "pois uma cliente que não paga pelas minhas investigações e só me traz problemas só serve para ir embora, mesmo". Ao menos uma certa calmaria eu finalmente tinha - ao contrário do louco do Mostarda, que só falava sobre viagens, mundo, novos horizontes e toda essa baboseira que as crianças dizem quando ouvem muito rádio.


Apesar da monotonia dos pedidos - um filho sumido, um assassinato bobo, mulher carente querendo desculpa para conversar - eu tenho me habituado a esta cidade: brigas quando quero, cerveja boa e barata, cigarros não me faltam (e algumas vezes viajo de volta à minha terra para buscar mais daqueles cigarros e mais daquela vodka), não tenho mais um dono de bar me enchendo o saco sobre pagar algo que não o devo...


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O mais engraçado é que aquela mulher "francesa" veio me procurar outras vezes. Na maioria das vezes, eram papos amenos, sobre coisa alguma, ou sobre sentido algum. Algumas vezes ela pedia ajuda com algumas complicações na partilha de bens sobre a herança, n'outras só queria uma conversa. Engraçado...


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Talvez eu ainda fique aqui por um tempo. E aviso que estou velho para barulhos, só quero minha paz - ou então responderão na bala!


Catchup

terça-feira, 30 de outubro de 2007


- Ela já era.
- Quem?
- A dama de vermelho.
- A dama de vermelho já era?
- A dama de vermelho a matou.

(...)

Lembro-me ainda como se tivesse ouvido ontem aquele tiro... Se bem que nem tanto assim. Parece que tem mais tempo. Mas poderia fazer mais. Ainda me perseguem por aquilo. Desgraçados que não saem da cola. Pelo menos por agora eu não tenho nada a declarar, por que não entendem isto?

(...)

- Ela estava em todas, tinha mais é que acabar assim.
- E meu escritório, quem vai pagar os danos?
- Você! Cretino... Ninguém mandou se engraçar com a moça na sua própria sala. Falo para não levar comida ruim pra dentro de casa...
- Cala a boca!
- Falo sério!
- Eu sei!
- Cala a bo...
- CALA A BOCA!

(...)

Dedos apontados como se resolvessem alguma coisa. Mas ambos sabemos que armas resolveriam tampouco. Soco o imbecil e ele faz cara de que não vai revidar. De fato. Me diz mais algumas palavras e fica por isso mesmo.

Tenho que reformar meu escritório...

Quem sabe mudar? Quem sabe trabalhar por outras bandas mais familiares. Eu sempre tive medo de ser esquizofrênico, mas aquela psicóloga gostosa de uns anos atrás me garantiu que eu só tenho manias. Céus! Estas mulheres que eu arrumo pra me falarem coisas poderiam ser piores que as que tentam me matar. Salvo o detalhe do frio cano na minha nuca, são a mesma coisa.

(...)

- Então é isto?
- É...
- Cala a boca, filho de uma...
- Mas será mais!
- ...
- Morre!
- Tsc... Cala a boca!
- Um por destruir meu escritório. Dois por matar uma vítima que não era sua. Três por atrapalhar o meu serviço. Quatro por matar os meus colaboradores. Cinco por ser você. Seis para garantir que não ficarei te devendo mais balas...

BLAM! BLAM! BLAM! BLAM! BLAM! ... BLAM!

- Dívidas pagas? Sim. Balas com sabor de mostarda para você, creti... CÉUS!
- Defuntos não têm dívidas aqui...

(...)

Lembro daquelas estranhíssimas palavras e de como elas saíram da boca do homem que acabara de levar seis tiros, todos mortais. O homem se vestia de forma estranha, tinha águias tatuadas pela cabeça. Era uma figura. Sabia de sua fama, mas não imaginei que chegasse a este ponto. Ele as disse e deitou-se, como que repousando, mas sem segurar o pescoço que caiu e a maior serenidade nas expressões. Um chefão do submundo. Quase inatingível, mas nunca poderia ser imortal. Por um momento pensei que fosse. Pegou uma das balas em seu corpo, a segunda, como pôde e proferiu palavras que me assustaram por breve. O bastardo disse que era a reencarnação de uma Fênix. Ele era a reencarnação de uma Fênix e disse:

“Não seria bom com isto pagar as nossas dívidas ainda nessa vida? Não seria bom pagar todas as nossas dívidas nessa vida? Não me torture, me mate logo, ou estará apenas adiando o meu inevitável retorno e sua ceifa”.

Aquilo me aterrorizou sobremaneira. Tenho medo da mera memória. Memória seletiva esquisita, que lembra o que quer. Algo me diz que eu vou me lembrar disso por um bom tempo, isso porque ainda não entendi o que o velho quis dizer. E tememos o que não entendemos. Fantasmas. De uma forma metafórica eles sempre aterrorizaram uns mais bobos. Mas é a primeira vez que acredito que podem me assustar também.

Ainda não sei o que fazer com meu escritório. Já meu trem chega ao destino, daí penso. Talvez o ideal seja mesmo procurar um novo lugar...

(...)

[Caso Angellis: ENCERRADO]

Mostarda

quarta-feira, 17 de outubro de 2007


Estava eu bebendo num bar, ouvindo uma música estranha que insistiam ser "coisa boa", quando um homem para em frente à minha mesa. "Mostrada!", exclamei, olhando que o desgraçado continuava o mesmo. Ele se sentou e contou de suas viagens.

Ele disse do turbilhão de locais que visitou e de como as viagens foram-lhe... epifânicas. Talvez fosse o rum dele, talvez a minha vodka, mas em dado momento nós dois derrubamos os respectivos copos ao chão, de tão bêbados, e aí eu percebi: algo não estava nada bem no meu amigo. Eu via em seu olhar. E então ele me contou da assassina, da mulher dos biscoitos, da dona da pensão... Não sei, algo em seu olhar. Talvez... E ele me contou também de olhos, de vistas, de cidades antigas e montanhosas, assim como arquitetônicas e sem igual.

A noite foi boa. Ele disse que deve ficar na cidade alguns dias, então devo encontrá-lo mais vezes. Ele já viu que aquele é o tipo de bar que me atrai - bebida barata, vagabundas no balcão e pouca gritaria. No mais, uma ou outra briga, pra me deixar feliz.

É, Mostarda, deu saudade te ver. Falando nisso, depois temos de fazer aquele local tocar uma música melhor.




sábado, 13 de outubro de 2007


É o fim do mistério? É isto? A resposta... Incompleta a resposta. Mal contado este caso. Na verdade mistérios perduram enquanto quiserem. Um caso nunca se traduz em coisas tão sem significado quanto uma cadeira quebrada.

Mostarda